A 4 de Agosto, a Agência Internacional para a Integridade do Ténis suspendeu, provisoriamente, Nick Kyrgios. Uma amostra recolhida a 22 de Junho, em Maiorca, acusou benzoilecgonina, metabolito da cocaína. O australiano não recorreu, assumiu a responsabilidade publicamente, pediu desculpa a família, adeptos e patrocinadores, e anunciou que se afastava da vida pública durante algumas semanas. No mesmo comunicado, sem transformar isso em desculpa, referiu dois anos travados por lesões e a dificuldade em aceitar que o fim da carreira se aproxima.
Em poucas horas, a internet tinha o veredicto pronto: mimado, fraco, sem carácter. E, quase em simultâneo, apareceu a segunda vaga, aparentemente mais generosa – a das explicações rápidas, das frases redondas que anunciam saber, exactamente, o que se passava dentro daquele homem. As duas posições parecem opostas, mas fazem o mesmo trabalho: poupam-nos ao esforço de pensar. Ambas fecham em segundos uma questão que, no consultório, levaria bastante tempo a elaborar.
Não sei o que se passa dentro de Nick Kyrgios. Ninguém que não o tenha escutado sabe, e a Psicanálise perde a sua seriedade no instante em que diagnostica quem nunca falou connosco. Chama-se a isso, psicanálise selvagem. O que um caso público permite é outra coisa: usar o que ele torna visível para pensar aquilo que também nos atravessa.
E o que fica visível, aqui, é a pressa de não sentir.
O que a mente faz quando não consegue pensar
Wilfred Bion propôs uma ideia que continua a ser das mais fecundas da Psicanálise contemporânea: a mente não nasce com a capacidade de pensar. Nasce exposta a impressões brutas – sensações, angústias, terrores sem nome – que ainda não são pensamentos e que, por si sós, não se deixam pensar. Para que se tornem pensáveis, é preciso alguém que as receba, as suporte, lhes dê forma e as devolva, já com um contorno humano. Uma mãe que aguenta o choro sem se desfazer nele, e o devolve ao bebé com um significado; mais tarde, um amigo, um treinador, um Analista. É desse trabalho a dois – em relação – que se constrói, dentro de cada um, um aparelho para pensar os pensamentos.
Quando esse aparelho existe, a dor pode ser sofrida. É muito desagradável, é lenta, mas é habitável.
Quando a frustração não pode ser tolerada, a mente torna-se incapaz de colocar ao seu serviço esse aparelho para pensar. Ao invés, tenta livrar-se do que a incomoda. A dor não pode ser pensada. É evacuada. Expulsa. Consumir, neste registo, não é procurar prazer. A substância, seja ela qual for, oferece um serviço: uma via de saída rápida para o que não encontrou forma… ainda que falsa e efémera. Não inaugura dor nenhuma. Nem a resolve.
A cocaína é um estimulante: muitas vezes é procurada, precisamente, para sentir mais, para sustentar um rendimento, para reencontrar uma vitalidade que desapareceu. Só que esse “mais” não é sentir: é excitação, a ocupar o lugar da experiência. Sentir pressupõe tempo, pressupõe suportar. A euforia química dispensa as duas coisas. Aquilo a que assistimos não é excesso de sentimento: é o seu curto-circuito.
O vazio não é a mesma coisa que a falta
Há uma distinção em que costumo insistir com os colegas que supervisiono, porque muda tudo, na clínica.
A falta é uma experiência rica. Sente-se a ausência de alguém porque esse alguém existe lá dentro. A falta dói, mas a falta permite pensar: é o motor do desejo, da criação, do trabalho, do luto.
O vazio é outra coisa. É a ausência de representação, a região onde não há sequer imagem do que falta. E o vazio não pede desejo, pede preenchimento. Não quer um objecto em particular; quer que aquilo pare. Qualquer coisa serve, desde que sirva já: a substância, a compra, a comida, a viagem, o novo relacionamento, o telemóvel às duas da manhã. Muda o objecto, muda o grau de dano… muda muito o grau de dano. Mas a função – tapar um buraco que não se deixa nomear – pode repetir-se. E, nesta medida, o vazio é desejo adormecido, narcotizado.
O desporto de alta competição e a solidão dos que contêm
Devem estar a perguntar-se: o que vem isto a propósito, numa crónica sobre desporto? O alto rendimento é, entre outras coisas, uma máquina de produzir pessoas que servem de continente para toda a gente e que não têm quem as contenha a elas. O atleta suporta a esperança de um país, a ansiedade de um clube, a projecção dos adeptos, e devolve tudo isso transformado em desempenho. É um trabalho psíquico gigantesco e raramente nomeado como tal.
Nesse arranjo, o corpo é o canal. É pelo corpo que se descarrega, se prova, se pertence, se existe. Enquanto o corpo responde, a economia funciona. Quando o corpo deixa de responder – dois anos de lesões; uma carreira a chegar a um fim, que aparece sem ter sido escolhido – fecha-se a única via de escoamento que estava aberta. Sobra uma quantidade enorme de dor sem destino, e nenhum lugar montado para a receber.
Isso tem um nome antigo e preciso: luto. Não pela morte de alguém, mas pela morte de quem se era. E o luto que não encontra onde acontecer transforma-se, quase sempre, em pressa de anestesiar.
Uma ressalva que me parece obrigatória: “só” compreender não trata. A dependência tem uma dimensão química que nenhuma interpretação resolve, de per si, e exige rede, estrutura, acompanhamento clínico sério, e a sério. Todavia, interromper o consumo, sem perceber a que é que ele estava a responder por dentro, deixa o vazio intacto, à espera do próximo objecto. Por isso a importância, neste campo, como noutros, do recurso à Psicoterapia Psicanalítica.
Outra questão que interessa, que não é sobre ténis, nem sobre um australiano de trinta e um anos: aquilo a que recorremos, ao fim do dia, acalma-nos de verdade, ou apenas nos anestesia e entope? Julgar quem se anestesia é fácil, é imediato e não serve para nada. Olhar para a nossa própria dose é que custa, mas também é a única coisa que, alguma vez, produziu pensamento.